segunda-feira, 22 de março de 2010

 Travestis, Transexuais  e o mercado de trabalho
                                         
Tudo pode acontecer, quando o assunto abordado é travestis e
trangêneros e sua inserção e exclusão no mercado de trabalho.
Com minha experiência e vivência nesta área, aprendi a ser mais
humana e não julgar somente um fato em si ,mas sim, olhar um pouco para trás e
refletir na história passada por esta transgênero. Cada pessoa é um histórico
cumulativo de alegrias, tristezas, vitórias, decepções, ilusões, conquistas e
tantas outras prerrogativas que as fazem ser do jeito que são e agirem do modo
que agem.
Quando falamos em transexuais , travestis e transgêneros,
devemos aqui observar uma carga extra, que é o preconceito com a exteriozação de
sua conduta e de sua sexualidade. Somos tidas muitas vezes como anomalias,
"bichos de circo" para o divertimento de clientes, objetos de uma vitrine de
prostituição ou até mesmo como aberrações.
Não é fácil o preconceito e a discriminação, bem sei disto. O
que não podemos fazer é cruzar os braços e achar que as coisas mudarão num
simples "plim-plim" , ou que , as pessoas "tem" que nos engulir da forma que
somos e desejamos.
Tudo faz parte de um processo. E como todo o processo, este
fenômeno é lento e gradual. Temos que, aos poucos, ir mudando os valores
arraigados em nossa cultura machista. Temos que neste momento ir fazendo
parcerias, encontrando pessoas acessíveis e propensas a nos ouvir e escutar
nossa história. Temos que nos unir mais, coisa que infelizmente não ocorre, haja
visto que o nosso mundo está cada vez mais voltado para a impessoalidade.
É triste ver que os seres humanos não se enxergam, nem dentro de
suas próprias segmentações. O Brasil dividiu-se, procurando encontrar seus
iguais, e perdeu-se neste emaranhado todo. Nossa diversidade é o que temos de
mais belo, mas a separação e desunião é o temos de mais triste e lamentável.
Vivemos numa época de mudança de valores e conceitos, e é nesta
época que devemos nos fazer ouvir, mostrando que as travestis, transexuais e
trangêneros realmente existem, sofrem, riem, ficam tristes, sentem, choram, se
divertem... e querem VIVER. Precisamos viver, pois a cada dia que passa a
situação da violência e da discriminação negativa, nos consomem e muitas vidas
são ceifadas e tiradas do nosso convívio diário.
Ao se falar em trangêneros e mercado de trabalho, temos que
analisar que somos as pessoas que mais sofrem no que tange este aspecto
importante da vida. O trabalho além de servir de válvula de escape para a
pessoa, a dignifica e a torna parte de uma sociedade. Isto é muito mais
importante, para nós trangêneros, haja visto , que na maioria das vezes somos
exluídas da sociedade e da inserção em seu bojo. A não ser em raros casos que
nos chamam e convidam para servirmos de atração e merchandising, como no caso de
eventos televisivos e carnavais da vida.
Isto tem que mudar e está mudando. Em Curitiba, teve
um seminário da Delegacia Regional do Trabalho, e o tema
debatido foi justamente a Promoção da igualdade de oportunidades de Trabalho; a
implementação da convenção nº 111 da OIT( leia-se Organização Internacional do
Trabalho) no Paraná.
Esta convenção 111, versa exatamente sobre a não discriminação
de quem quer que seja no trabalho, e da oportunidade igual e chances ídem para
todos os indivíduos, independente de sua idade, sexo, orientação sexual, cor,
credo, vínculo político, nacionalidade, gênero, e deficiências em geral. Neste
projeto, foi firmada uma parceria com todos os grupos presentes, entre eles o
Instituto Paranaense 28 de junho, a qual eu sou vice presidente. Isto mesmo,
você leu bem, sou uma transexual e que luto para que as coisas mudem. E luto,
não por vaidade ou por algum status, pois eu estaria muito bem levando minha
vidinha, sem precisar me envolver em causa alguma. Seria mais simples. Luto por
acreditar nas mudanças e por ter a certeza de que elas devam partir de nós. que
nos sentimos minorias e excluídos.
A ponte está sendo feita., e todos são chamados a participar de
sua construção em prol de um mundo melhor e mais humano. Através de atitudes
como estas, feitas no Paraná e de outras tantas que são anônimas, mas tambem
importantes, estamos mudando nossa realidade social. Este projeto de cidadania e
justiça no trabalho, já foi instaurado em diversos outros Estados,
como Ceará, Rio Grande do Norte, Minas Gerais, e outros tantos. Em cada um
destes locais, a população já dispõe dos Núcleos de Combate à discriminação no
trabalho. E tenho que afirmar para vocês que o trabalho destes núcleos é lindo e
muito bem feito. Tanto a nível organizacional, quanto a nível de respostas para
os casos que chegam até ele. Falo em número de porcentagens e casos
resolvidos. 

Vários casos de preconceito e discriminação , baseados em
orientação sexual, foram golpeados e levados à lona. Fez-se valer o indivíduo e
não sua condição. As coisas estão mudando, eu sei e vejo que estão. Mas temos
que fazer a nossa parte. É fácil para os ditos "normais" e de padronagem aceita,
nos criticarem e julgarem sempre, quer seja pela prostituição, marginalidade ou
afetação estereotípica. É fácil para nós, transgêneros, dizermos que somos
injustiçadas e que somos vítimas. Mas aqui pergunto a todos vocês: " O que as
pessoas fazem para nos entender???? O que procuram saber de nós, antes de nos
julgarem e massacrarem???" "O que nós, trangêneros, estamos fazendo para mudar
esta triste realidade que se apresenta??"
Nada é a resposta certa???? Eu creio que num primeito momento
sim, pois são muito poucos os interessados em mudança. É mais fácil e mais
cômodo criticar , ao invés de buscar-se soluções para que as coisas fiquem bem
para todos. Existem grupos organizados em todos os cantos do país. Grupos sérios
que lutam cotidianamente, mas são muito poucos os que realmente compram e vão à
luta.
Os transgêneros carregam no seu corpo , no seu rosto, na sua
maquiagem diária, mesmo que seja somente um rímel, a bandeira da diversidade e
da luta, mas isto não está mais bastando. Temos que não somente mostrar "os
peitos" , mas mostrar nossas idéias para construção de um mundo melhor. Se
realmente acreditamos nisto.
Encontro sempre diversas pessoas querendo mudar o mundo, e
pouquíssimas querendo mudar a si mesmas. A mudança somente ocorre quando mudamos
a nós próprias e aos nossos conceitos. Não somos 100% certas, mas também não
somos 100% erradas. Vamos chegar a um denominador comum...... e o caminho é o
diálogo e a união , sem dúvida nenhuma.
Eu poderia ficar aqui falando, horas, das pessoas que já vi se
matarem na minha frente, das que foram mortas por tiros, apedrejamentos e
espancamentos ../mayte1/diversos. Poderia eu ficar aqui durante horas, falando
de minha luta diária, e do preconceito que sofro como transexual, todos os dias
e em todos os momentos. Em contrapartida, já que posso estar aqui falando
prefiro falar para vocês que as coisas estão mudando, mas que para mudarem ainda
mais temos que ser parte desta mudança toda. Não ser carregada pela maré, mas
ser parte dela, envolver-se, manifestar-se, enfim, as formas de participação são
várias.
A luta é árdua e difícil sim, mas a população transgênero está
começando a refletir e tomar consciência de seu potencial. Somos muitas... e
somos corajosas. Somos vencedoras por natureza e em essência. Façamos desta
força nossa aliada. Juntas, pois somente assim realmente seremos ouvidas e nos
faremos respeitar.
P.S=> Se por algum acaso do destino , algum empresário ler
este texto e chegar até aqui, creio que as mudanças realmente já começaram.
Espero que você chegue mais longe, senhor empresário, e comece a refletir na
pessoa transgênero, como uma pessoa extremamente capaz para o trabalho e para o
pleno emprego. Veja-nos como bons olhos e verá que além do retorno de uma vaga
ocupada com capacidade, você estará desenvolvendo um trabalho social e de
construção de um mundo melhor. Um porém, não nos veja como "deficientes"... pois
muitas vezes as aparências enganam, e este é um caso típico. Somos, ousamos e
queremos existir.
Sim para a oportunidade igualitária de trabalho para todos.
Não para a discriminação.
Chega de sermos vítimas, somos GENTE.

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