Quem é ela, a quem muitos consideram “ele”? Será que isso a ofende, ou não? Muitos acham que
é apenas um “apêndice bizarro das patologias”... Muitos acham que é um “desequilíbrio” de nossa
perfeita psique, e muitos acham que ela “não percebe quem realmente é”, acorrentada ao conceito
dogmático de que “ser quem somos” depende unilateralmente da genitália que possuímos e de duas
“letras” que compõem nosso cromossomo. Quem é ela, que sem ser realmente conhecida, é julgada
“culpado” e “condenado” a “subviver” nos quatro cantos escuros do nosso perfeito mundo, pagando o
injusto preço que lhe é cobrado como “conseqüência natural de sua opção”? Que “opção” tem ela (que
“é ele”), além de ser quem é? Que “opção” tem um ser humano, além de ser quem é?
Antes de lhe perguntar o seu nome (aquele com o qual ela realmente se identifique, goste e, acima
de tudo, não se sinta constrangida), muitos já a definem como “aquele” que é “doente”, veio de “família
sem valores” e só sabe fazer coisas equivocadas, além de ofender a “moral e os bons costumes”. Quem é
ela (que “é ele”) se nem sabemos e nem queremos saber quem é?
Ela (por “ser ele”) não sonha? Não tem talentos? Não tem potencialidades? Só sabe ser
“desequilibrado”, “coitadinho”, “deprimido”, “iludido”? Ela (por “ser ele”) não sabe, ou jamais terá a
capacidade de saber viver e conviver com os demais? Ela (por “ser ele”) não é humana o bastante para ir
além do que lhe é imposto? Ela (por “ser ele”) não pode libertar-se dos limites do estereótipo do homem
para ir além do estereótipo da mulher? Ela (por “ser ele”) não pode ser mulher em identidade, por lhe ser
intrínseco, e não ser homem em formato, por lhe ser obrigação? Se ela se sente ela, porque tem que “ser
ele”? Ela é “ele”?
Se não compreendemos porque ela (que “é ele”) é ela, não poderíamos simplesmente lhe dar o
direito à voz para argumentar porque ela (que “é ele”) se sente ela? É tão difícil assim exercer a arte de
ouvir? Ouvir de verdade? Pelo menos tentar compreender, de verdade, a verdade dela? Ah, sim... A
verdade não “pertence a todos”! Nem é “direito de todos”. Talvez não seja mesmo direito dela (que “é
ele”) ser ela; já que muitos, mesmo sem conseguir explicar direito o porquê, se sentem tão aviltados,
chocados, perturbados, confusos, ofendidos e condescendentes com o simples fato dela (que “é ele”)
existir e ser ela. Mas, se muitos não conseguem explicar direito o porquê de se sentirem tão incomodados
com ela (que “é ele”) ser ela, por que então, de fato, ela (que “é ele”) incomoda tanto? Ser ela, mesmo
“sendo ele”, afeta tanto assim a vida de tantos? Afeta mesmo?
Se ela “aceitasse ser ele”, o nosso país seria melhor? Se ela “aceitasse ser ele”, as crianças
desamparadas teriam comida, roupa e futuro? Se ela “aceitasse ser ele”, os muitos políticos corruptos
deixariam de ser corruptos? Se ela “aceitasse ser ele”, o nosso frágil planeta estaria a salvo dos interesses
destrutivos de muitas corporações, para as quais a única coisa de valor são os números sob a forma de
posse? Se ela “aceitasse ser ele” não haveria mais carência de água potável para os povos sedentos que
nem conhecemos? Se ela “aceitasse ser ele” o mundo não teria mais problemas? Se ela “aceitasse ser
ele” o mundo seria melhor”?
Se ela “aceitasse ser ele” você não teria mais problemas? Se ela “aceitasse ser ele”, a vida de
você seria melhor? Se ela “aceitasse ser ele” você seria melhor? Ou você não é dos muitos que se
incomodam, sem saber o porquê, com o fato dela (Tá bom, tá bom... Desculpem-me os donos da verdade:
“ELE”) ser ELA?
Ah, se você realmente não é destes muitos, então esqueça este texto... Desculpe-me pelo tempo
que tomei de você. Afinal, este texto não é tão importante assim. Na verdade, que importância esse texto
tem, afinal? Você poderia me responder? Por favor?
BARBARA GRANER







