A violência e a discriminação atingem todas as pessoas que ousam amar e ser diferentes do que manda a (hetero)norma e suas instituições (família, escola, mídia, igrejas). Mas, mesmo os GLBT sofrem o preconceito de intensidade e formas diferenciadas. Da aceitação e integração (quase)plena ao assassinato brutal. Ocorrem gradações e variações conforme diversas circunstâncias.
Há, entretanto, uma população que esteve e está sempre na linha de tiro, na linha de frente, sofrendo a discriminação mais brutal, pagando uma alto preço para ser o que é. Trata-se das travestis. Elas não se escondem, não têm subterfúgios - sua identidade, seu corpo e sexualidade simplesmente explodem nas fuças dos "normais".
Travestis singelamente desbravam. Transgridem. Afirmam-se. Seu desejo e sua identidade afloram e - rasgando toda hipocrisia - elas tornam-se Adrianas, Fernandas, Cristianes, Carlas, Marcelas, Rafaelas. E começam, então, a pagar pela ousadia de se atrever a querer ser de um jeito que não estava permitido. Geralmente, são apedrejadas (literalmente) , agredidas e expulsas da escola e da família. Como verdadeiros pára-raios, canalizam para si a homofobia em estado bruto e mais agressivo.
Sim, dói - elas sabem. E os caminhos estreitam-se sobremaneira. Construir sua vivência, afirmar sua identidade, contudo, é algo do qual não abrem mão - é como respirar ou se alimentar. Aí, alguns muitos (mesmo entre os GLBT), acham que travestis nascem com uma espécie de "vocação" natural para a prostituição (profissão que carece de regulamentação e condições para que se possa exercê-la com dignidade). Não. Essa é uma alternativa que se impõe para muitas (ou talvez para a maioria) das travestis.
Afinal, qual o lugar que a sociedade reserva para essas pessoas? Prostituta, atriz pornô, cabeleireira, costureira.. e não passa muito daí. Imaginem, por exemplo, se mamãe iria querer levar filhinho para se consultar com uma pediatra travesti. Ou se o distinto senhor iria constituir uma advogada travesti. Claro, não é destino, nem opção única. Vitimização não ajuda e nem resolve. Mas é difícil escapar deste rumo, da barbárie das esquinas escuras. Bombadeiras e cafetinas estão por aí, à espreita, como quem prepara mercadoria nova para o supermercado. Se o Estado não reconhece nem o direito destas pessoas portarem documentos com o nome que escolheram, se não as ajuda a alterar seu corpo de maneira adeqüada (com homonoterapia e prótese de silicone) se não garante a permanência delas na escola, seria surpreendente que assegurasse o seu direito ao trabalho!
Totalmente terceiro sexo, totalmente terceiro mundo, terceiro milênio? Todavia, é fascinante. Não há palavra mais adeqüada para descrever essa experiência, essa construção identitária, com as múltiplas possibilidades que as travestis nos dão de pensarmos nossos desejos, identidades, corpos e práticas sexuais. Para quem gosta de rotular, trabalhar com binarismos ou com gavetas, as travestis estão aí, desafiando-nos a pensar, a olhar fora do quadradinho.
A identidade de gênero das travestis é feminina. Mas, que mulheres são essas? Que mulheres especiais, que exuberância de peitos, bundas e curvas, que convivência harmônica com seus falos imponentes - libidinosa combinação. Mulheres sem igual, porque gostosas, de peito e pau, como às vezes gritamos, felizes, em nossas passeatas.
Se nossa sociedade se permitisse conviver e admirar (ao invés de excluir), celebraríamos as travestis. É privilégio da diversidade humana, a existência de pessoas tão especiais, de corpos e mentes tão cheios de possibilidades, mistérios e desejos. Em um mundo melhor, com culturas menos influenciadas por dogmas judaico-cristã os, veremos com outros olhos a travestilidade. Como em tantas outras sociedades, que valorizaram suas deusas ambíguas, hermafroditas, andróginas, seus eunucos, suas fêmeas diferentes.. .
Travestis são nossas guerreiras maiores, porque sobreviventes. Contra todas as possibilidades, insistem. Dão a cara a tapa e esbofeteiam sem dó a heteronormatividade . A maioria das pessoas talvez só as veêm como despudoradas, putas, adictas, violentas, incultas. Acontece, que antes de condenar, é preciso constatar como elas vivem, de onde vieram e como chegaram até aqui (ilhas num mar de violência e incompreensão) . O seu viver é sobretudo um SOBREviver. Na verdade, é preciso olhar no espelho e enxergar nosso machismo, homofobia e conservadorismo antes de pretender julgá-las.Celebremos então a travestilidade, parte exuberante do nosso arco-íris.
Por Julian Rodrigues
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