quinta-feira, 17 de janeiro de 2013

TRAVESTI: PROSTITUIÇÃO, SEXO, GÊNERO E CULTURA NO BRASIL. Parte I



 Kulick D. Rio de Janeiro: Editora Fiocruz; 2008. 280 pp.


O livro do antropólogo norte-americano Don Kulick, é uma profunda análise de campo sobre as travestis de Salvador, Bahia, Brasil, realizada em meados da década de 90. O livro foi inicialmente publicado nos Estados Unidos, e depois no Brasil pela Editora Fiocruz. O autor é professor de antropologia e diretor do Center for the Study of Gender and Sexuality, New York University.
O texto é importante por várias razões. As pessoas vêem as travestis nas ruas, na televisão e na mídia em geral, mas poucos fazem idéia de como estas pessoas vivem, o que pensam e qual a sua trajetória pessoal. Kulick viveu entre elas em uma humilde casa perto do Pelourinho, no centro de Salvador. Tornou-se um observador neutro, até mesmo confidente de algumas, e conseguiu observar seu modo de vida, conhecer suas idéias, sonhos e problemas, reais ou imaginários.
O livro é dividido em cinco partes: A Vida das Travestis em Contexto; Virando Travesti; Um Homem em Casa; O Prazer da Prostituição; e Travesti, Gênero, Subjetividade. O texto é claro, objetivo, respeita o vocabulário das entrevistadas e consegue, por meio de uma articulação entre argumentos, proposições e análises, tecer uma linha explicativa do mundo das travestis sem que preconceitos ou apologias o contaminem.
As travestis são homens, mas exigem ser tratadas no feminino. Vestem-se de mulheres, tomam hormônios ou aplicam silicone para parecer mais mulher, porém, no ato sexual com seus clientes muitas vezes fazem o papel ativo. São femininas na aparência e másculas em várias atitudes, podendo chegar à violência para se defender. Se o mundo homossexual masculino já foi razoavelmente estudado por sociólogos, educadores, psicólogos, historiadores, antropólogos, literatos e profissionais da área da saúde, as travestis permanecem uma incógnita contraditória para muitas pessoas, com poucos estudos científicos publicados no país. Elas são homossexuais, aliás, consideram-se os mais corajosos e genuínos, e não admitem mudar de sexo. Possuem ética e moral próprias, que desenvolvem em seus grupos de vivência. Prostituem-se e, por outro lado, "bancam" namorados para ter ao seu lado um homem, pagando-lhe casa, roupas, alimentação e diversão. Vivem na marginalidade social e no falso glamour existencial. Hoje, são símbolos em vários países europeus, ao lado das prostitutas e michês, da liberalidade e exuberância sexual brasileira.
Em vários pontos do livro (p. 151 e 196-202), Kulick avança na discussão conceitual e metodológica ao analisar um ponto freqüentemente escamoteado ou distorcido pelos analistas: a questão do prazer. A prostituição travesti é, além de uma fonte de renda, uma experiência prazerosa e recompensadora. É um trabalho visto como qualquer outro e é nesse campo que elas são reconhecidas socialmente. Há uma crítica lúcida e oportuna (p. 196) sobre a ausência de prazer que as prostitutas teriam em seu trabalho e que "o sexo colocado à venda torna-se necessariamente degradante e desagradável". Isso nem sempre pode ser considerado verdadeiro, seja com prostitutas, michês ou travestis, mas neste caso específico, o autor elabora de forma sólida a postura de que o prazer é uma possibilidade real no relacionamento entre travesti e cliente.




É importante analisar a dimensão do prazer para evitar moralismos e preconceitos em relação à atividade sexual profissionalizada, ou seja, a prostituição. Para os profissionais de educação, saúde pública, cientistas sociais e políticos, conhecer as nuances da vida desse segmento social ajuda a preparação de suas bases de trabalho junto a estas populações e diminui a resistência provocada pela ignorância ou discriminação.
Um outro ponto importante é a análise do momento de entrada na atividade de prostituição e o processo para que os meninos ou adolescentes assumam a vida, corpo e mente de uma travesti. Os diálogos reproduzidos mostram a visão desses meninos, extasiados e amedrontados frente a uma nova dimensão existencial. O prazer e o dinheiro, a possibilidade de ganhar a vida vendendo seu corpo, as ilusões ao lado da realidade brutal do cotidiano são mostrados pelo ponto de vista e palavras das travestis.
O tópico sobre Os Clientes (p. 171-180) toca em um assunto comentado mas geralmente visto como "lenda urbana" ou curiosidade: os clientes das travestis são homossexuais enrustidos que não querem sair com um homem e procuram uma "fêmea fálica" ou buscam prazeres estranhos ao serem penetrados por um homem com corpo de mulher? O relato aponta que esses clientes, em sua maioria, gostam de se relacionar de todas as maneiras com as travestis, inclusive como agentes passivos no sexo. Esse imaginário fica evidenciado junto à população, especialmente quando há escândalos envolvendo celebridades e travestis, o que garante espaço privilegiado na mídia. Se o homossexual que se prostitui, o michê, é alvo de diversas pesquisas, textos literários, filmes e peças de teatro e sensibiliza o imaginário de algumas pessoas, a figura da travesti eleva esta sensibilidade a patamares mais altos.
A comparação que as travestis fazem entre si e as mulheres é outro tópico que envolve as questões de gênero e de sexualidade comercial. "As idéias sobre travestis e mulheres também se manifestam em uma relação tensa, problemática e antagônica; uma relação em que as travestis são o reflexo, mas as mulheres são o espelho" (p. 214). Outra comparação é com os homens heterossexuais e homossexuais. Um parágrafo fundamental é: "Assim como as travestis não estão lutando para conquistar a condição de mulher, elas também não rejeitam a identidade e também não desejam a ambigüidade. Sua luta é pela homossexualidade. Elas almejam incorporar a homossexualidade. E desejam fazer isso da maneira mais completa, mais perfeita e mais bela possível. Ao passo que outros indivíduos do sexo masculino denegam e disfarçam o desejo pelo mesmo sexo, as travestis abraçam esse desejo e se deliciam com ele" (p. 233).
Desejo, prazer, identidade e subjetividade são amplamente comentados no livro. Se a questão "por que alguns homossexuais viram travestis?" não é claramente respondida - e talvez nem possa - a reflexão e descrição desse estilo de vida tão marcante no Brasil alcança novos saberes no texto de Kulick. Apesar de passados dez anos da pesquisa de campo, a temática mantém sua relevância, inclusive discutindo o trabalho dessas travestis na Europa, especialmente na Itália, onde são marcas registradas da exportação sexual brasileira.
Atingindo maior visibilidade social no contexto das lutas das lésbicas, gays, bissexuais, travestis e transgêneros (LGBT) no Brasil e em vários países do mundo, as travestis são um segmento social que incorpora um preconceito ainda maior, graças à sua visibilidade e exposição pública (afinal um homossexual masculino ou feminino pode disfarçar sua opção, o que é quase impossível para uma travesti). Entender sua mente e vida é importante para as questões que envolvem cidadania, luta contra o preconceito, inserção social e estudos sobre sexualidade e saúde pública. Mas um dos pontos principais está no subtítulo do livro: cultura. A cultura LGBT no Brasil ainda possui traços não devidamente explorados e discutidos, e Kulick se propõe a contribuir para que estas lacunas sejam minimizadas. Entender a cultura dos diversos segmentos sociais implica ampliar seu espaço de cidadania e participação social e política. Ao lado, é claro, do prazer em viver de acordo com suas convicções, algo importante em uma sociedade pluralista e democrática e uma prática constante, para garantir esses espaços e manter a dignidade própria de cada grupo social.




Travesti – Vida fácil... Nada fácil


A história e o cotidiano das figuras exóticas do Reduto nas noites de Belém

O travesti

Uma vida colorida com pingos acinzentados. Uma vida acinzentada com pingos coloridos. O colorido se faz na alegria que estampam em seus rostos e no modo de encarar a vida com otimismo. O cinza está no preconceito que têm de conviver a cada momento que saem às ruas. Eles são objetos de desejo para alguns. Para outros, são motivos de piadas. Personagens exóticos que fazem parte obrigatória das noites das cidades. Indivíduos que fascinam pelas suas histórias. Estes são os travestis.
É difícil definir este estilo de vida. É cheio de incertezas. Mas é certo que não é nada fácil, apesar de ser chamada de “vida fácil”. Em Belém, quando chega a calada da noite, são suas vozes que tomam conta de vários pontos da cidade.  Um destes locais é o bairro do Reduto, onde ficam agrupados nas ruas 28 de setembro, Manoel Barata, Quintino Bocaiúva e Municipalidade.
Alguns são verdadeiras alegorias. Em cada detalhe da composição do travesti: rimel, blush, batom, peruca devidamente colocada, roupas e adereços femininos, existe por trás um homem. Homens que se fantasiam de mulher, mas que têm noção do que são: homens. Eles não se consideram mulher. Sabem perfeitamente a diferença do personagem que criam para a profissão de “prostitutas” e do que são durante o dia. “De manhã eu sou um bofe bem bonito. Eu sou cabeleireiro. Já trabalhei em vários lugares. Eu gosto de mim como os dois, tanto homem quanto travesti”, assim começa o relato de Latifa, um dos travestis do Reduto.
O travesti L. F. M., 18 anos, que fica na esquina da Quintino com a Municipalidade, conta um pouco sobre sua história. “Meu nome profissional é Latifa Guadalahara. Eu comecei na verdade com 16. Meus pais descobriram que eu era homossexual e tivemos uma discussão, então fui embora de casa. Eu já conhecia umas amigas de pista que moravam todas juntas numa quitinete. Elas me convidaram e perguntaram se eu estava disposto. Hoje em dia, eu já estou lá com elas há um ano e meio”, diz Latifa.

Preconceito

Os travestis estão nos cantos escuros da boemia. Consome o “serviço prestado” apenas quem quer. Então, não fica claro o porquê de tanto ódio em torno deles. Acabam se tornando um tema em que há dificuldade por uma parte da sociedade para compreender e respeitar o modo de vida deles.
São seres humanos. Cidadãos com histórias boas e ruins, que possuem pessoas que amam e muitas vezes, pelo próprio preconceito delas, são obrigados a deixar para trás. “Hoje em dia falo malmente com a minha mãe. Mas ela não sabe que faço programa. Meu sonho não era ser gay, meu amor. Por mim, eu preferiria não ser gay. É muita discriminação. Sofre demais”, desabafa Latifa.
 São jovens que enfrentam literalmente uma selva de pedra, porque de vez em quando levam pedradas dos carros que passam nos guetos em que se concentram. Durante a entrevista, foram incontáveis os números de carros que passavam mexendo com os rapazes. “Tá vendo só, tá vendo como é? Às vezes a bicha tá com uma TPM desgraçada. Dá uma pedrada num carro desses e a polícia vem aqui em cima da gente. Tem gente que passa e joga ovo podre.  Gritam ‘Viado, tu és muito feio!’. Pegam pau pra dar na gente”, relata o travesti.
Eles batem de frente contra a perversidade, a violência e o preconceito para ter uma vida melhor. Segundo Latifa, é apenas uma questão de sobrevivência. “Quem começa nessa vida, ou é porque é muito pobre ou então é que nem meu caso: é expulsa de casa por ser gay. E para não roubar, a gente procura outros meios. Porque tem muita bicha que ao invés de se prostituir vai roubar com arma. E a gente não quer isso”, conta Guadalahara.

Cotidiano

O travesti tem que encarar todos os dias uma realidade bastante cruel. Apenas homem que é homem consegue. E o que impressiona é que, geralmente, ele não é um homem. Não pelo fato de ser homossexual. A média é de 14-15 anos. Quando se olha de longe, alguns parecem, realmente, mulheres. Misturam inocência com maturidade. Eles têm que se manter fortes para agüentar essa vida. Latifa conta que de vida fácil, não tem nada. Tem de enfrentar os dois lados: polícia e bandido. “Tem gente que pede dinheiro pra gente. Dois marginais. Eles pegam o que é nosso e se tu não deres, eles te batem. Às vezes, a gente dá uma desculpa e dá uns cinco reais. Já os policiais fazem arrastão, pedindo identidade. Se não tiver, adeus maquiagem e make-up. É tapa na cara”, denuncia.
Já a travesti Evelyn Haveli Vanusa, 15 anos, conta que tem policial que cobra sexo. “Teve uma história duma colega nossa, que o policial desceu da viatura e pediu pra ela abaixar a calça, que ele queria fazer sexo oral nela. E pediu pra ela não contar nada pra ninguém. Ela ficou traumatizada”, diz Vanusa. Haveli perdeu a mãe aos 10 anos e o pai aos 13. Atualmente mora com os irmãos.
Os travestis do Reduto não possuem cafetão. Cada um tem o direito de cobrar o quanto quiser. Latifa detalha o seu dia a dia. “Eu trabalho de terça à sábado. Todo dia tem cliente. Mas a gente tira alguns dias de folga. Porque a gente tem que se arrumar, fazer compras. Tem que fazer a unha, ajeitar a peruca, comprar maquiagem. Até porque a gente divide tudo. Eu chego em torno de 21h e saio por volta das 4h. Se eu bater quatro portas e conseguir tirar meus R$200, eu vou embora, mesmo se tiver cheio de clientes. E tiro fácil! Eu sempre cobro o mesmo preço, R$50. Tem gente aí que dependendo se o cliente é lindo, cobra mais barato. Eu não. Pode ser lindo como for ou podre, eu cobro o mesmo preço. Ele pode fazer tudo. Uma hora no motel. Mas eu sou passiva. Quem faz tudo, cobra mais caro”, diz Guadalahara.





Perfil dos Clientes

As pessoas que procuram os serviços dos travestis, em sua maioria, são homens que possuem dinheiro. São maridos e pais de família. Alguns contratam o travesti apenas como companhia para ir às boates ou jantar em restaurantes finos. O travesti também serve como psicólogo ou uma “amiga” para desabafar as dores do casamento que vai mal, ou de homens  que sentem por não poder contar para suas próprias famílias, também, que são homossexuais. “Normalmente o cliente é alguém que tem bastante dinheiro. Tem carrão. Celulares bons. Andam bem vestidos, com roupas de marca. Tem um cliente nosso que paga R$150 pra não fazer nada. Só pra ficar no motel bebendo com ele. Também já recebi R$200 só pra ficar uma noite praticamente inteira com um cara pra ele desabafar as dores dele, porque a família não sabia que ele era homossexual. Eu fiquei um dia super feliz. Era um cliente europeu, alemão ou francês, porque ele era muito branco e falava uma língua muito esquisita. Ele veio, me pegou num conversível e me levou pra jantar num restaurante chiquérrimo. E me deu R$200. Na Europa isso é normal”, afirma Latifa.
Outros que procuram com frequência o travesti são os casais. Cansados da rotina ou por puro prazer, eles chamam um travesti para irem ao motel. Lá, dependendo do gosto do casal, fazem de tudo. “Algumas vezes é a mulher que quer assistir a gente com o homem, outras é o marido que quer a gente com a mulher”, diz Vanusa.
Latifa complementa: “Geralmente se vai ou pro drive-in ou pro motel de preferência deles. Eu não tenho caso com clientes. Mas tem alguns que pedem o telefone e quer ter algo mais íntimo. Já outros gostam de fazer maldade. Não quer pagar, quer agredir. Mas aí a gente fica louca e dá uma tapa”.
Figuras públicas de Belém e do Estado, também, estão incluídos na lista de clientes, segundo os travestis do Reduto. Luana, 16 anos, a única transexual do grupo, é uma das que já tiveram esta experiência. A transexual diz: “Já saí com integrantes de uma banda de pagode, deputados e prefeitos”.

Sonhos

No meio de uma realidade difícil, ainda há espaço para sonhar. Alguns dos sonhos deles:
Luana: “Colocar silicone nos seios e conseguir dar um conforto aos meus pais”
Latifa Guadalahara: “Um dia ter minha própria casa e dar conforto aos meus pais. E ter alguém ao meu lado que goste de mim de verdade”

''Sonhos normais de pessoas comuns. Sonhos comuns de pessoas normais''.
Delano Almeida


Gênero e estrutura biológica não definem o que somos e o que queremos ser. É só observar os transexuais, que possuem uma identidade de gênero diferente da designada no nascimento, tendo o desejo de viverem e serem aceitos como sendo do sexo oposto. Apesar de parecer simples, não é. A vida dessas pessoas vai muito além do desejo. A maioria tem uma infância muito sofrida, rodeada de preconceito. Poucos são aceitos do jeito que são. Alguns conseguem empregos, outros optam ou se veem obrigados a trilhar o caminho da prostituição. Muitas vezes, essa “escolha” vem por conta do desejo de se transformar. Diversos casos podem ser observados. Há trans que não sentem necessidade de fazer cirurgia para transformar os órgãos sexuais, mas se sentem mulheres.

Violência faz parte da vida de transexuais e travestis, diz pesquisador


Rede Brasil Atual 6 de dezembro de 2010 às 17:00h
Para Aureliano Biancarelli, casos de agressões por supostas razões homofóbicas, como os da avenida Paulista, em São Paulo, não são novidade
 Por Suzana Vier, do Rede Brasil Atual

Os recentes casos de violência por suposta motivação homofóbica, como os que envolveram jovens na avenida Paulista, em São Paulo, em novembro passado, não são novidade na vida de travestis e transexuais, afirma o pesquisador e jornalista, Aureliano Biancarelli. Autor do livro “A Diversidade Revelada”, que narra o dia a dia de transexuais e travestis, ele relata que a violência contra essas pessoas começa cedo, já na infância, e no interior da própria família e se repete na escola e ao longo de toda a vida.
“A violência é uma constância na vida delas. Começa com uma violência que é menos visível, mas mais danosa para a pessoa que é a violência dentro de casa”, pontua. Nem sempre travestis e transexuais sofrem violencia física, mas em geral passam pela exclusão familiar. “Ou você se enquadra no sexo que nasceu ou vai ser expulso de casa”, acentua Biancarelli.

Em entrevista à Rede Brasil Atual, o jornalista explicou que a violência doméstica, física ou psicológica, acaba levando transexuais e travestis às ruas e à marginalidade. “Se vai para rua e é um travesti, um homossexual que quer viver como travesti, vai acabar caindo na marginalidade. A única coisa que vai encontrar no mercado de trabalho é a prostituição ou, raramente, vai encontrar trabalho como cabeleireiro”, analisa.
De acordo com definições médicas citadas pelo antropólogo e pesquisador Bruno Cesar Barbosa em entrevista à Agência USP de Notícias, uma ou um travesti seria aquele que se comporta e se veste como o outro gênero, mas não quer a cirurgia para mudar seu órgão sexual. Já os/as transexuais, sentem a necessidade de fazer a cirurgia, pois se sentem do outro gênero desde o nascimento.
As transexuais consideram que nasceram com o corpo errado. A mente age como se fosse de um sexo e o corpo é de outro, por isso desejam fazer a operação que recolocaria o corpo no lugar que deveria estar, diz Biancarelli.
Segundo o pesquisador, uma ínfima porcentagem de famílias compreendem e aceitam familiares transexuais ou travestis. Motivo que leva muitas pessoas a viverem escondidas ou se relacionarem apenas dentro do mesmo grupo.
Como exemplo do medo que ronda a vida dessa população, Biancarelli cita a história de um homem trans, com corpo feminino,que perto de se casar, prefere esconder da família da noiva sua condição de transexual. Ou a história do professor de inglês, homem trans, que tem uma vida em comum com uma professora da mesma área, mas vive sempre no “limiar do risco”, com receio de que colegas e familiares descubram a transexualidade.
A rejeição social também impacta no estilo de vida de trans e travestis.”Eles têm medo do dia. Têm uma vida na escuridão”, comenta. “Quando escurece, aí se travestem, se enfeitam, mas durante o dia saem o mínimo possível de casa. Elas não têm coragem de tomar Metrô, ou ônibus, por exemplo”, acrescenta em relação às travestis.




Discriminação
Biancarelli detectou que transexuais e travestis sofrem preconceito e humilhação em ações simples do dia a dia, como ir ao banheiro ou procurar um médico.

“Homem e mulher trans, como se vestem de mulher, utilizam banheiros femininos e todas elas relatam violência nessas situações porque mulheres reclamam se descobrem ou sabem. Da mesma forma não seriam aceitas com roupa de mulher em banheiro de homem”, alega Biancarelli. Há casos de profissionais demitidos ou que tiveram de se submeter a usar “o banheiro dos fundos” para permanecer na empresa, informa o jornalista.
Ir ao médico é outra questão complicada para essa população. Primeiro, a transexual ou travesti é chamada pelo nome de homem, mas quem levanta e vai ao encontro do médico ou da enfermeira é uma mulher. Depois, os trans homens não têm ginecologista para atendê-los. “Não tem como ir a um ginecologista vestida de homem”, argumenta o jornalista. Da mesma forma, é difícil para uma trans mulher ir ao proctologista. “Como iam procurar hormônio?”, indaga o pesquisador.

Saúde
Segundo o jornalista, travestis e transexuais têm a saúde muito precária. Entrevistas realizadas com a população mais jovem aponta que apesar de não procurarem cuidados médicos há vários anos, em geral ainda não manifestaram problemas.  Entretanto, a faixa etária mais velha sofre com graves problemas de saúde.

Da população que procura o centro de acolhimento do Centro de Referência da Diversidade  (CRD) na rua Major Sertório, centro da capital paulista, quase metade estava infectada e outra metade nunca havia feito exames, por isso não sabe seu estado de saúde real.

Biancarelli diz que as travestis acabam bebendo muito e usando drogas diariamente para aguentar a precariedade em que vivem. “Na noite você as vê cheirando cocaína, às 21 horas. Uma das coisas que o hotel ou boate condiciona é que ela incentive o cliente a beber e o cliente quer que ela beba também”, conta.
Também é frequente que clientes queiram que a prostituta use drogas com ele. “Eles estão usando crack, então elas acabam caindo no crack rapidamente”, elucida. “Elas precisam de mais serviços de saúde”, afirma o jornalista.

Amor
Ao acompanhar o dia a dia do Centro de Referência da Diversidade, o pesquisador diz que se surpreendeu com as inúmeras histórias de amor vividas por transexuais e travestis. A maioria das mulheres e homens transexuais sonha com casamento, família e quer a mudança de sexo.

“Elas querem uma vida mais regrada, recolhida”, esclarece. ”Vi vários casos de trans casadas, estabelecidas. Impressionou o número de trans que tinham relacionamentos”, enfoca. O jornalista também encontrou muitas travestis casadas ou namorando transexuais, michês, cafetões.
“Já esperava ouvir relatos de humilhações e maus-tratos sofridos pela população LGBT… Só não esperava que o amor e o companheirismo sobrevivessem com tanta força entre esses personagens. No Centro de Referência da Diversidade é comum ver casais de mãos dadas, ela travesti, ele heterossexual, os dois morando na rua. Em todos os relatos, em meio a histórias de maus-tratos, abandono e discriminação, há sempre uma história de amor”, revela em trecho do livro “A Diversidade Revelada”.
Na publicação, Biancarelli acentua que “respeito e os cuidados psicológicos e médicos a essa população dependem de um amadurecimento da sociedade. Vai do conhecimento e da atenção médica, que inclui cirurgias complexas e reordenações do serviço público, aos avanços em termos da legislação e até mesmo às interpretações do Judiciário”, sublinha.








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